Encontro de um olhar e um assunto

O tchecoslovaco Josef Koudelka é um dos maiores nomes da fotografia atualmente e uma das minhas principais fontes de inspiração. Assim como ele, também comecei minha jornada na fotografia registrando espetáculos teatrais. Trabalhar no palco é um treinamento que ajuda a desenvolver habilidades que permitem antecipar aqueles momentos em que o comportamento dos artistas não é conhecido, aumentando nossa capacidade de improvisar e se adaptar às mudanças da cena.

Moravia (StráÏnice), 1966, cópia de 1967, The Art Institute of Chicago, doada pelo artista, 2013.
©Josef Koudelka / Magnum Photos

Antes de se tornar membro da prestigiosa agência Magnum em 1971, registrou alguns dos mais importantes eventos da história recente, como a chamada “Primavera de Praga”, em 1968, onde imortalizou em imagens o estampido dos tanques, os gritos dos soldados e o desespero dos moradores. Mas nessa coluna gostaria de comentar sobre o trabalho da vida de Koudelka: “Gitans, la Fin du Voyage”. Ele começou esse trabalho em 1962, documentando a vida das comunidades ciganas da Bohemia, Morávia, Eslováquia, România, Hungria, Franca e Espanha sendo editado originalmente em 1975 pela Delpire (França) e Aperture (Nova York) e 40 anos depois reeditado e ampliado pelo autor passando a se chamar apenas “Koudelka: Gitanos”.

Romênia, 1968, cópia dos anos 1980, The Art Institute of Chicago, doação prometida de Sandy e Robin Stuart.
©Josef Koudelka / Magnum Photos
Gitanos é um livro mítico, uma referência indispensável para os amantes da fotografia

Gitanos é um livro mítico, um marco na história da fotografia ao lado de trabalhos como The Americans, de Robert Frank e The Decisive Moment, de Henri Cartier-Bresson. Uma referência indispensável para os amantes da fotografia e em especial para a fotografia documental que marcou diversas gerações de fotógrafos. Ele aprendeu a olhar para a comunidade cigana, até então negligenciada, tornando-se amigo deles através da música que praticava como amador. Koudelka dá nova voz à comunidade cigana com a poesia de sua imagem, quase pictórica, ao não apenas olhar, mas orquestrar a imagem: compondo com maestria primeiro plano e profundidade, centro e periferia, sobreposições que tecem, sem palavras, os múltiplos e poderosos laços do povo cigano. Emoldurados na arte de Koudelka, as tradições e nobreza do povo cigano tornam-se ainda mais mágicos, imbuídos de uma aura incomparável.

Tchecoslováquia, 1968.
Invasão, Praga, 1968 © Josef Koudelka / Magnum Photos
França, 1980 © Josef Koudelka / Magnum Photos
© Josef Koudelka/Magnum Photos

Este texto foi originalmente publicado no aplicativo CulturaCuritiba