John Berger foi um crítico de arte, pintor e escritor inglês. Dentre suas obras, destaca-se o livro “Modos de Ver” (1972), que revolucionou a forma de olhar a arte refletindo sobre como nossas ideias de beleza, gênero ou classe social moldam nossa perspectiva. Esse texto pensa o livro “Para Entender Uma Fotografia” onde Berger responde aos questionamentos de outra grande pensadora da fotografia: Susan Sontag, .

John Berger e a fotografia na sociedade capitalista
O perigo de tentar entender uma história lendo apenas um dos lados dela.
Esta não é uma foto famosa, mas a lição por trás não tem preço.

O aspecto mais marcante deste texto de Berger fala sobre como a fotografia vem substituindo a memória e sendo usada como ferramenta de manipulação na sociedade capitalista. Ao contrário da memória, segundo o autor, as imagens fotográficas não retêm significado em si mesmas. Fotografias nada mais são do que o registro de um evento que ocorreu em um determinado momento e lugar. Ao substituir a memória, que coloca as coisas em perspectiva e lhes confere valor sujeito a julgamento crítico, as imagens podem nos fazer acreditar que vivemos em um mundo onde tudo é espetáculo.

Assim, a interpretação de cada imagem está sujeita às experiências pessoais, crenças e opiniões de cada observador. São esses fatores que, em última análise, dão sentido a uma imagem, quer corresponda ou não ao que o fotógrafo tinha em mente quando a capturou. Esse mecanismo torna a fotografia um instrumento de manipulação e que hoje, mais do que nunca, está sendo usado para sustentar sistemas econômicos e políticos. Ele argumenta que uma sociedade industrializada precisa de imagens para continuar funcionando e se sustentar.

Imagens tiradas do contexto costumam ser confusas ao invés de úteis para esclarecer o problema. Uma fotografia sempre estará sujeita às associações de cada observador e seus modos de ver — portanto, sempre haverá muitas versões diferentes quanto à sua interpretação. Isso não é ruim em si, mas é importante entender esse mecanismo ao visualizar e interpretar imagens. Em outras palavras, é necessário desenvolver a capacidade de “olhar as imagens com inteligência”.


Foto "Times Square V-J Day photo" por Alfred Eisenstaedt ilustrando o texto "John Berger e a fotografia na sociedade capitalista" do fotógrafo Paulo Pomkerner
Times Square V-J Day photo por Alfred Eisenstaedt

A verdadeira história por trás da foto é tão romântica quanto um repolho: George estava em casa, com Rita Mendonsa – sua paixão a primeira vista – pronto para partir para a guerra novamente quando descobre pela TV que a guerra havia acabado.

Então, deixando o show pelo meio, eles saíram para as ruas onde as pessoas começaram as celebrações. George, que respeitava muito as enfermeiras, empolgado pelo álcool, planta este beijo icônico que se transformou em uma das fotos mais conhecidas da época.

Porém, como nem tudo são flores, esta garota não é Rita Mendonsa, é Greta em seu uniforme de assistente de dentista. Greta obviamente não achou graça e tentou escapar de suas mãos, mas tudo acabou tão rápido quanto começou.

Enfim, para encurtar a história, George e Rita acabam se casando e Rita nunca se incomodou muito com a foto, pois George estava todo embriagado e eles nem estavam noivos naquele momento.

Ah, Rita é aquela moça que aparece atrás do braço direito de George.


Foto "A Garota de Napalm" por Nick Ut ilustrando o texto "John Berger e a fotografia na sociedade capitalista" do fotógrafo Paulo Pomkerner
A Garota de Napalm por Nick Ut

Em junho de 1972, após Trang Bang ser invadida pelos vietcongues – como ficaram conhecidos os soldados que lutavam ao lado do Vietnã do Norte –, a família de Kim se abrigou em um templo religioso próximo a sua casa. No dia 8, os sul-vietnamitas lançaram um grande ataque contra a vila, e todos que se refugiavam no local tiveram que fugir às pressas.

A menina, seus primos e irmãos correram em direção a uma grande estrada que cortava o vilarejo, chamada Rodovia 1. Foi bem ali que os aviões militares sul-vietnamitas derrubaram as bombas de napalm, supostamente esperando atingir as tropas inimigas.

Aquela imagem foi uma das muitas que Ut tirou daquele conflito, embora esta tenha sido a que marcou sua carreira e ainda lhe rendeu o prêmio Pulitzer.


Foto de Kishore Parekh ilustrando o texto "John Berger e a fotografia na sociedade capitalista" do fotógrafo Paulo Pomkerner
Soldado do Rajakar por Kishore Parekh

Esta é a foto mais incompreendida da história de Bangladesh, que se tornou uma das muitas ferramentas de propaganda relacionada à guerra da Independência em 1971. Mostra um soldado paquistanês checando dentro do lungi de um homem para ver se ele é hindu ou muçulmano e, se for hindu, provavelmente será levado para ser morto. 

Ela circulou por toda Bangladesh para mostrar a natureza desumana do exército paquistanês, sugerindo que eram tão cruéis e racistas que não hesitaram em verificar a circuncisão como uma forma de identificar e separar o povo hindu da massa em geral. 

Na verdade, a foto é de um livro do fotógrafo indiano Kishore Parekh chamado “Bangladesh- A Brutal Birth” e tirada depois da independência de Bangladesh. O soldado na foto era na verdade um soldado indiano que estava verificando um preso do Rajakar (colaborador local do exército paquistanês) se eles tinham armas escondidas dentro de seus lungi. 


Foto "London Milkman" por Fred Morley  ilustrando o texto "John Berger e a fotografia na sociedade capitalista" do fotógrafo Paulo Pomkerner
London Milkman por Fred Morley

Uma imagem icônica tirada durante a 2ª Guerra Mundial e um símbolo do espírito de luta e perseverança da Grã-Bretanha. A foto mostra um leiteiro entregando leite em uma rua de Londres destruída após um bombardeio alemão. Alguns bombeiros estão tentando apagar um incêndio ao fundo.

Fotos tiradas para documentar os extensos danos causados ​​pelo bombardeio eram rotineiramente censuradas para evitar a propagação do pânico em massa e não revelar os locais dos bombardeios aos alemães. Esta foto acabou não sendo censurada por simbolizar o caráter desafiador dos britânicos.

Porém, esta foto foi encenada. Fred Morley estava tirando fotos de bombeiros tentando conter um incêndio causado pelos bombardeios. Ele tinha visto um leiteiro por perto, então pegou emprestado sua roupa e garrafas de leite e fez seu assistente posar como o leiteiro com o bombeiro como pano de fundo. 


Este texto foi originalmente publicado no aplicativo CulturaCuritiba


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