Um tesouro nas caixas de sapato

Ainda estamos em quarentena e qual foi a atividade que mais executamos nesse período? Faxina, claro. Estamos lá, abrindo aquele velho armário, começando a tirar as coisas para limpar e organizar quando uma caixa cai e um belo punhado de fotografias antigas se espalha pelo chão. Imediatamente fazemos uma pausa em qualquer tarefa e começamos a olhar cada uma delas. Quem são essas pessoas? O que eles estão vestindo? Por que tantos estão fora de foco? Bem, parabéns, caro leitor, porque você acabou de descobrir um monte de fotos vernaculares.

No início de sua jornada a fotografia ficou presa no estúdio de retratos, onde apenas as classes mais altas da sociedade eram fotografadas, até que fotógrafos amadores começaram a experimentar o processo de daguerreotipo, capturando membros de suas famílias. Na década de 1890, houve um tremendo aumento na fotografia amadora com a chegada de câmeras mais simples de usar. É o começo oficial dos álbuns de família e com eles o estilo fotográfico que hoje conhecemos como Vernacular. Cabem aí todas nossas fotografias de família, fotos de viagens, fotos de escolas, retratos amadores, trabalhos de fotógrafos itinerantes e todas aquelas que tenham como temática os acontecimentos comuns da vida cotidiana.

Pode-se dizer que toda fotografia que não possui um “autor” é Vernacular, entretanto essa denominação é algo relativamente recente usada para dar identidade a vastas coleções de material anteriormente desvalorizado. A fotografia Vernacular é importante porque está aberta a diversas interpretações. Pode ser remodelado, reinventado, redefinido, transformado em uma infinidade de histórias diferentes. Fotografias e montagens de imagens feitas para um mercado específico podem ser reinterpretadas à luz do conhecimento cultural atual tendo seu significado original radicalmente alterado. A cada dia, mais artistas, curadores e designers usam fotografias esquecidas em caixas nos porões, subvertendo a noção de autoria e reconhecendo o poder das imagens deslocadas de seu contexto, trazidas da esfera privada para o olhar público, criando trabalhos poderosos que ocupam importantes museus e galerias do mundo todo.


Este texto foi originalmente publicado no aplicativo CulturaCuritiba