A distorção da familiaridade.

Na Alemanha e Paris pós-Primeira Guerra Mundial, surgiu um movimento fotográfico inspirado nas práticas de improvisação do Dadaísmo e nas artes surrealistas, uma incursão nos reinos do inconsciente, sonho e fantasia. Os artistas começaram a trabalhar, na câmera e pós-produção, com técnicas progressistas para criar imagens surpreendentemente separadas dos usos originais da fotografia. A estética surrealista desafiava as percepções do espectador com um forte apelo no conceitualismo, conjurando o estranho, o etéreo ou incomum. Enfatizavam a intenção do artista que apresentavam imagens familiares, porem destravadas de seu contexto habitual, convidando a novas perspectivas do comum. Esse movimento espalhou-se pelo mundo tornando-se um marco na exploração das possibilidades da imagem fotográfica que permanece comum no mundo artístico até hoje.

Os artistas desse período exploravam a fotomontagem, colagem, manipulação de fotos pós-produção, encenação e fotograma buscando imagens fundamentadas na realidade, mas que desafiavam a percepção ou enganavam os olhos do espectador para ver o que havia embaixo, forçando uma sensação de realidade distorcida. Essas fotos, à primeira vista, podem ser consideradas familiares, mas exigiriam instantaneamente uma visão dupla.

A fotografia surrealista percorreu um longo caminho. Enquanto hoje temos o Photoshop e outros programas de pós-processamento que facilitam a criação desse tipo de fotografia, nos tempos da fotografia em câmara escura não havia computadores para ajudá-los. Todos os efeitos surrealistas tinham que ser construídos diretamente na câmera ou durante a revelação — algo que não é muito fácil de fazer. Do famoso Man Ray com seus rayographs ao mais recente Erik Johansson, é interessante ver onde a fotografia surrealista começou e no que ela se transformou ao longo dos anos.

Dora Maar, Picasso au crâne de boeuf, 1937, Phillips, Untitled
Dora Maar, Untitled, ca. 1940, San Francisco Museum of Modern Art (SFMOMA)
Hans Bellmer, La Poupée, Berlin, 1935/1935-38, Contemporary Works/Vintage Works
René Magritte, René Magritte et “La Clef de Verre”, 1959, Bruce Silverstein Gallery

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