Carte de Visite

O bisavô das redes sociais

Toda história tem um começo e para começar a minha história como comentarista de fotografia decidi falar do ponto onde a fotografia se tornou um produto consumido tanto quanto senão até mais do que hoje.
Carte de visite (frente e verso), tirada por Krauss & Hilb, Stuttgart c1863

E para começar a contar essa história, precisamos voltar um pouco no tempo. Estamos agora na Paris da segunda metade do século XIX, um tempo de incertezas políticas e da grande remodelação estética da capital francesa, que deixou para trás as antigas ruelas medievais e passa a ostentar os modernos bulevares que admiramos até hoje. A fotografia tinha sido inventada há pouco mais de 10 anos e ainda era um processo caro, acessível apenas à elite da sociedade.

Cart de Visite (frente e verso) de Theodor Prümm, Berlin 1876

Foi nessa época que André Adolphe-Eugène Disdéri, um ex-comerciante, ator e daguerreotipista muda-se para Paris no intento de fazer fortuna e, percebendo a ânsia da burguesia em imitar a elite aristocrática, transforma isso em uma oportunidade de negócios. Aproveitando sua experiência com daguerreotipia e comércio, idealiza um sistema para tornar o processo mais barato, transformando a fotografia em mercadoria e ampliando o acesso aos estúdios às camadas menos abastadas da sociedade. A fotografia tornava-se, assim, parte da vida do homem moderno.

Carte de visite das gêmeas canadenses Rose e Marie Drouin (“gêmeas St. Benoit”) . C1879

Disdéri desenvolve uma câmera fotográfica com quatro lentes para obter, em apenas um negativo, oito retratos de cerca de 5×9 centímetros — tamanho que até hoje é utilizado nos cartões de visita. Os clientes saiam do estúdio com uma série de imagens idênticas podendo, inclusive, retornar para encomendar mais cópias, já que o negativo ficava arquivado. Utilizadas como uma forma de apresentação de imagem pública conferia ao indivíduo retratado certo status social, ajudando-o a construir sua identidade e o sentimento de pertencimento à pirâmide hierárquica social conforme as normas estabelecidas pela sociedade. As pessoas retratadas nas carte de visite queriam contar sua história, mas nem sempre a história real. Como os estúdios ofereciam vestimentas e outros adereços muitas vezes inacessíveis à maioria das pessoas, os indivíduos fotografados podiam criar uma imagem que nem sempre correspondia à realidade.

Carta de visita da dançarina Marietta Zanfretta (1832-1898) c.1898

As cartes de visite espalharam-se rapidamente pelo mundo chegando a Nova Iorque no verão de 1859 e no Brasil na década de 1860. Entretanto, a estética das imagens permaneceu a mesma em todos os locais: o enquadramento do sujeito em função do cenário, a ausência do riso, o modo de posar, o conjunto de vestimentas e outros adereços muitas vezes inacessíveis à maioria das pessoas, os indivíduos fotografados podiam criar uma imagem que nem sempre correspondia à realidade.

Carte de Visite de Fernand AHM Weustenraad (1858-1939). c.1883

As cartes de visite espalharam-se rapidamente pelo mundo chegando a Nova Iorque no verão de 1859 e no Brasil na década de 1860. Entretanto, a estética das imagens permaneceu a mesma em todos os locais: o enquadramento do sujeito em função do cenário, a ausência do riso, o modo de posar, o conjunto de vestimentas. Adaptaram-se os hábitos locais e cenários, mas o conjunto de intencionalidades que revestia o ato de ser fotografado e de circular as imagens manteve-se o mesmo.

Carte de Visite by Rheinstädter Nachf. Paul Plagwitz, Frankfurt (Main), c. 1890

Uma das principais funções das artes é refletir os hábitos contemporâneos e com a fotografia — como arte que é — não poderia ser diferente. As carte de visite favoreceram o acesso da burguesia à representação imagética nos moldes da tradição pictórica que retratava a monarquia e a elite aristocrática do século XIX. Se naquela época foi a massificação da fotografia que deu o tem da multiplicação de personagens, atualmente não é diferente. Basta trocar a mídia e a velocidade com que as imagens se propagam, mas a função continua inalterada. Os álbuns de fotografia transformaram-se em feeds e o status é medido por likes, mas a necessidade de construir uma imagem social para o sujeito que seja capaz de identificá-lo e posicioná-lo perante determinado grupo social continua inalterada.


Este texto foi originalmente publicado no aplicativo CulturaCuritiba

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